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:: CLARICE LISPECTOR







Clarice Lispector foi uma escritora brasileira nascida em Tchetchelnik, pequena cidade da Ucrânia, aos dois meses de idade, com os pais e duas irmãs, chega a Recife. Durante a infância, leu contos infantis que, segundo ela, soltavam-lhe a imaginação. Um de seus livros sagrados era “Reinações de Narizinho”, de Monteiro Lombato. Clarice começou a escrever logo que aprendeu a ler, falava vários idiomas, entre eles Inglês e o Francês. Cresceu ouvindo no âmbito domiciliar o idioma materno familiar, o Iídiche.

Foi para o Rio de Janeiro em 1937. Adolescente, impressionou-se ao ler José de Alencar, Eça de Queirós, Graciliano Ramos, Machado de Assis, Jorge de Andrade, Mário de Andrade, Rachel de Queiroz, Julien green, Herman Hesse, Dostoievski e Katherine Mansfield. Clarice ingressou na faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Aos 19 anos de idade, Clarice escreveu seu primeiro romance, “Perto do Coração Selvagem”. Que, aliás, ganhou o prêmio Graça Aranha, considerado o melhor romance do ano. Com apenas 19 anos, pôde assistir a enorme repercussão com o público e com a crítica de seu estilo, diferente de tudo o que fizera até então.

Em 1942, começa a namorar Maury Gurgel Valente, seu colega de faculdade. Com 22 anos de idade, recebeu seu primeiro registro profissional, como redatora do jornal “A Noite”. Realizou cursos de antropologia brasileira e psicologia, na casa do estudante do Brasil. Casou-se em 1943 e, devido à carreira diplomática do marido, morou 16 anos fora do Brasil, na Europa e nos Estados Unidos, a vida de mulher de diplomata não lhe agradava, já que passava muitos anos de sua vida fora do Brasil.

A escrita de Clarice Lispector situa-se numa confluência de paradigmas, que a narradora entretece, destece e põe em tensão: a cena do Realismo-Naturalismo e a do Romantismo-Simbolismo. Isto significa que em seus textos encontram-se veios recessivos que, transformados por sua perspectiva estilística pessoal, criam um entrelaçamento significativo entre a realidade e a “realidade adivinhada”. Neste sentido, ela produz uma poética que lhe é própria, e nela como que desenha uma arquitetura textual, na qual três obras se destacam e se enlaçam (reclamando-se e afastando-se) com rara sabedoria, por permitirem perceber a tensão no traçado do conjunto:” Laços de família”, que contracena com “A Via Crucis do Corpo”, mais próximo de uma lição realista-naturalista; “Água viva”, denso poema em prosa, na qual tempo, enredo, personagens se desagregam e “A hora da estrela”, seu último romance, espécie de ponto ótimo de articulação, mas não de síntese, das tendências referidas. Textos em mutação, as narrativas de Lispector sublinham a precariedade e o nomadismo da consciência e da existência, entre as aleluias e as agonias do ser.

Pouco antes de morrer, Clarice Lispector decide se afastar da inflexão intimista que caracteriza sua escrita para desafiar a realidade. O resultado desse salto na extroversão é “A hora da estrela”, o livro mais surpreendente que escreveu e que foi adaptado para o cinema nos anos 80 por Suzana Amaral. Depois de separar-se do marido, já de volta ao Brasil e morando no Rio de Janeiro soube que sofria de câncer generalizado. Clarice faleceu, no Rio, no dia 9 de dezembro de 1977, Um dia antes do seu 57° aniversário, em plena atividade literária e gozando do prestígio de ser uma das mais importantes vozes da literatura brasileira. Entre a realidade e o delírio, Clarice buscou o social enquanto sua alma a engolfava.


“Quem escreveu: “Sou tão misteriosa que não me entendo”, não poderia mesmo ser facilmente interpretada. Contudo, até as mais impenetráveis esfinges se preocupam em oferecer, aqui e ali, pistas para a decifração de seus enigmas. Os textos de Clarice Lispector estão repletos de chaves e senhas, mesmo que estas porventura abram apenas caixas que escondem outras caixas, que escondem outras caixas que escondem outras caixas... As pistas que possibilitavam rastrear o caminho até seu eu profundo, Clarice concedia apenas aos familiares e aos amigos íntimos, mas poucos foram os que as seguiram até o fim, imbuídos da certeza de que não convém decifrar certos mistérios para não lhes embaçar o esplendor”.
Pedro Karp Vasquez


“Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: Quero uma verdade inventada”. Clarice Lispector


 

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